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O destino do pai

Por Nora Silvestri (EOL)

Lacan nos propõe, no Seminário XVII, capítulos VI e VII, ocupar-nos do destino do pai, examinando as relações contraditórias entre dois mitos: o do Complexo de Édipo e o de Totem e Tabu. Neste último, que ele chama de "palhaçada darwiniana", a proibição do gozo primordial se edifica a partir do assassinato do pai, enquanto que o primeiro assassinato do pai é a condição de gozo.

Claude Lévi-Strauss, em a Antroologia estrutural, afirma que nos mitos como pacotes de relações se pode afirmar duas contraditórias como idênticas, na medida em que cada uma, tal como a outra, é contraditória consigo mesma. Ele salienta que há uma lei interna dos mitemas, por meio da qual o campo da enunciação da verdade só se sustenta em um meio dizer, e o que melhor encarna isso é o mito.

É essa relação entre o mito e o meio dizer da verdade que importa para Lacan, em relação ao gozo. Mas o que está, a um só tempo, velado e indicado neles?

O sentido do mito é um enunciado do impossível e o meio dizer da verdade é a maneira de nos ocuparmos com o destino do pai.

O discurso analítico é o que permite que, no lugar da verdade, advenha, como saber, o mito, para que a análise aponte a verdade do meio dizer mascarada no discurso do inconsciente.

É no mito que a verdade se mostra em uma alternância de opostos. Por isso, é necessário fazer girar um em torno do outro.

Quando Lacan se ocupou do Complexo de Édipo, ele o fez sob a forma da metáfora paterna. Simbolizou a referência paterna com uma estrutura quaternária. Ele nos assinala que não se pode abordar a referência freudiana sem fazer intervir, mais além do assassinato do pai, a dimensão da verdade como irmã do gozo.

O mito edípico é um conteúdo manifesto. Freud não o aborda como um mito, mas, sim, sob a forma do complexo. Édipo não sabe que matou seu pai e gozou de sua mãe. É mediante este não saber que nos apresenta o inconsciente. O final do Édipo é congruente com: quis saber a verdade a todo custo. O fato de Freud converter esse conteúdo manifesto em latente permite a Lacan chegar à conclusão de que devemos considerar a análise do Complexo de Édipo como um sonho de Freud.

Surpreende-o como Freud se empenha em sustentar a dimensão real de Totem e Tabu. Nesse enunciado freudiano, o mito moderno que a psicanálise inscreveu em nossa cultura, aparece a equivalência do pai morto e o gozo como um operador estrutural.

"Que o pai morto seja o gozo é algo que se apresenta a nós como o signo do próprio impossível".

Mais além do mito do Édipo, estes termos fixam a categoria do real como impossível.

"Não na qualidade de simples escolho contra o qual quebramos a cara, mas de escolho lógico daquilo que, do Simbólico, se enuncia como Impossível".

Temos então o operador estrutural, o pai do real.

Pai real, efeito da linguagem, agente da castração, é uma operação real introduzida pela incidência do significante que determina o pai como esse impossível. Esta operação de castração não é fantasia, lança como produto a causa do desejo articulada à fantasia que, enquanto lei, domina toda a realidade do desejo.

Lacan vai precisando a função do pai real e a constrói separando-a tanto do pai que trabalha e quer ser amado, como do pai real reduzido ao espermatozoide.

Acredita que se entra em um terreno perigoso quando se formula a pergunta: "Porque, em uma psicanálise, não seria – de vez em quando se tem esta suspeita – o psicanalista o pai real?"

Lacan, por outro lado, também afirma a posição do analista como idêntica à do objeto a, posição à qual o psicanalista se presta em uma psicanálise.

O que podemos dizer da posição do analista em uma psicanalise, como objeto a ou como pai real, é uma orientação possível para os assuntos de família no inconsciente desde os enredos em nossa prática.

Tradução: Vera Avellar Ribeiro