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O retorno fratricida do parricídio primordial

Por Verónica Carbone (EOL)

O texto de Freud é, em si mesmo, uma estrutura. Atravessa a história e é quase impossível pensá-la passando-o por alto. Sua hipótese sobre o parricídio originário é um porto de partida necessário para teorizar sobre os avatares da organização da humanidade.

Um ponto intrigante é o passo que Freud marca como evolução positiva, que vai da proibição de matar o irmão ao "Não matarás" universal.

Se o pensamos desde a ilustração da Revolução Francesa, vemos como motivo de penúria global humanitária o fato que, de suas três palavras de ordem: Propriedade, Igualdade e Fraternidade, a última não tenha se cumprido nem sequer no modo de pensar das populações.

E nem cabe falar do não matarás em uma época que a humanidade deixou de ser imortal e sofre o risco de destruição total, seja pela guerra nuclear ou por catástrofes do ecossistema.

É como se a proibição recíproca entre os irmãos parricidas quanto ao gozo dos frutos de seu crime tivesse se convertido em uma profecia auto cumprida. E a volta da feroz luta fratricida reprimida tivesse retornado catastroficamente em termos pós-modernos, envolvida em toda a sua mortífera tecnologia, multiplicada por milhões de mortos e de cidades arrasadas, preferindo a infância como alvo.

Atualmente, o embrião prévio à destruição é justamente o oposto (talvez não contraditório) da fraternidade: a segregação.

Na realidade, é um fato, uma força que se impõe sobre a outra. A Fraternidade é esmagada pela segregação. É o espectro do pai assassinado que, como Macbeth, numa manobra fantasística ordena a seus filhos que se matem entre si. E, mais ainda, isso se perpetra mediante o uso aterrorizante do poder dos Estados. Mas, quem deixou essa porta aberta?

A própria Bíblia. Quando Abraham se dispõe a sacrificar o que mais ama, seu filho Isaac, a pedido de Deus e, no último instante, o mesmo Deus o exime, por trás da cena piedosa está instaurada a verdadeira norma, que diz: "É lícito e inclusive desejável matar os filhos em caso de ordem superior, ou seja, em um estado de necessidade". Esta, nem mais nem menos, é a Razão do Estado: o argumento racional que se impõe para legitimar os genocídios e todas as guerras.

A segregação é constitutiva no ser humano e vai se radicalizando segundo os objetivos de sua manipulação discursiva. O discurso capitalista é quem lubrifica a perpetração infinita da vingança do pai morto assassinado cujo espectro não cessa de retornar.