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¿Que recobre esse encarniçamento na fraternidade?

Por Walter Capelli (EOL)

O mito freudiano de «Totem e tabu» é retomado por Lacan no Seminário 17. Neste Seminário, Lacan se interroga acerca do destino da fratria originada no parricídio que: «Mesmo com nosso irmão consanguíneo, nada nos prova que somos seu irmão – podemos ter uma porção de cromossomas completamente opostos. Essa obstinação com a fraternidade, sem contar o resto, a liberdade e a igualdade, é coisa ridícula, que seria conveniente captar o que recobre".[1]

O parricídio nos irmana e "as energias que empregamos em sermos todos irmãos provam bem evidentemente que não o somos".

Em um sentido mais geral, a noção de fraternidade realça a ideia de um laço entre iguais. Laço que supõe um sentimento de amor, um vínculo libidinal que sempre exclui a realização sexual que, seguindo Freud, se constitui em tabu. Supõe-se que certo número de pessoas (tomadas de duas em duas ou coletivamente) que se consideram iguais e estão unidas por um amor particularmente intenso, se chamam de irmãos.

O parágrafo citado de Lacan menciona, junto à Fraternidade, a Liberdade e a Igualdade. Os três significantes mestres muito poderosos da revolução francesa – advertindo-nos que conviria saber o que recobre esse encarniçamento na fraternidade.

Com efeito, depois de conhecer a ampla lista de assassinatos efetuada pelos revolucionários franceses sobre as figuras do Antigo Regime, podemos dizer que a fraternidade também acarreta um desconhecimento, um recobrimento do gozo, presente em toda relação entre os homens e não devemos pensá-lo unicamente como uma circunstancia histórica.

No mesmo Seminário, Lacan diz que o pai do Édipo, o bom pai de família, é muito distinto do pai feroz de Moisés e este, por sua vez, muito diferente do pai darwiniano de "Totem e Tabu", suposto gozador de todas as mulheres. Estas três figuras do pai, construídas por Freud, revelam, a inconsistência do pai para vigiar o gozo.

A partir da psicanálise, sabemos que não há nada na cultura, no discurso social, que inscreva esse gozo que representamos com o algoritmo A barrado. O neurótico tentará suturar esse vazio no Outro com o ideal do pai de família. Como o assinala E. Laurent, é um sonho do neurótico que lhe permite suturar a hiância sexual e o faz concordar com o ideal social.

Este pai é o pai ao qual Freud recorre na citação da epígrafe. Seu avesso é o Nome-do-Pai. Por essa razão, a psicanálise considera os enredos familiares não a partir deste pai ideal, mas a partir do gozo que está em jogo nas relações familiares.

Tradução: Vera Avellar Ribeiro

NOTAS

  1. Lacan, J. O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise, Rio de Janeiro, JZE, 1992, p. 107.